sábado, 29 de dezembro de 2012

O Efeito Sombra






Imagine que cada característica, cada emoção, cada pensamen­to sombrio que você tenta ignorar ou negar, seja como uma bola de praia que você segura embaixo d'água.

Você pega o self egoísta, o raivoso, o excessivamente bom, o não tão bom assim, o tolo, o convencido — todos eles — e, subitamente, está opri­mido com todas essas bolas de praia que tenta segurar.







Se você ainda é jovem, tem bastante energia para conseguir admi­nistrar muitas bolas — consegue reprimir muitas das carac­terísticas indesejadas.

Mas depois, quando está cansado, de coração partido ou doente; quando não acredita mais na possibilidade de um futuro emocionante; quando abaixa a guarda; quando sua atenção está na família, ou na expectativa de uma promoção; quando já tomou drinques demais... de re­pente, bum!

Você, ou alguém ao seu redor, faz algo sem pensar e uma ou mais bolas emergem e o atingem no rosto. Esse é o Efeito Sombra.O que são as brigas de trânsito? Será que é algo além de uma bola de praia de raiva reprimida forçando o caminho à superfície? Vemos isso na mídia o tempo todo.

Um cineasta que faz filmes cristãos subitamente fica bêbado e, aos berros, faz comentários antissemitas na fúria da bebedeira. Um astro do rádio que ganha a vida sendo um grande comunicador de repente faz um insulto racial que destrói sua carreira e reputa­ção.

Uma jovem e ambiciosa professora que joga fora o futuro por fazer sexo com um aluno de catorze anos. Uma estrela de cinema que pode pagar por praticamente qualquer coisa e é flagrada roubando em lojas. Todos esses impulsos reprimidos e escondidos que tentamos administrar são como bombas-relógio esperando para explodir.

E podemos ter certeza de que o Efeito Sombra surgirá no momento menos oportuno — quando estivermos à beira do su­cesso financeiro ou vivendo um novo romance; a poucos dias de nos aposentar ou prestes a fechar um negócio que poderia mudar nossa vida para sempre.

Esses são os momentos em que sabotamos o próprio sucesso, conscientemente ou não, quando uma escolha feita sob a névoa da inconsciência mina o pro­gresso pelo qual trabalhamos durante anos. Uma sabotagem pessoal é a exteriorização da vergonha interna escondida nos recônditos escuros da mente inconsciente.

Pelo fato de não ter­mos tido sabedoria, coragem ou recursos para fazer as pazes com o que reprimimos por culpa, medo ou vergonha, isso é forçado à exposição para que possamos recuperar o self perdi­do e voltar ao estado de transparência do self pleno.

Somente quando o comportamento autodestrutivo já não é mais segredo é que podemos olhar objetivamente os danos que estamos causando a nós mesmos e aos que estão ao redor, e encontramos motivação para mudar.

Só após os filhos voltarem da escola e encontrarem a luz cortada é que nos dispomos a encarar o vício no jogo. É preciso ser detido no trânsito para despertarmos para o fato de que o hábito de beber está fora de controle.

Quando saímos para jantar com amigos e o garçom anuncia que o cartão foi recusado, finalmente nos damos conta de que os gastos estão fora de controle. Quando somos flagra­dos roubando a conta da empresa, enfim percebemos que pre­cisamos lidar com o problema. Podemos nos iludir quanto a estar indo bem no trabalho, ou na dieta — até recebermos a ava­liação anual, ou subirmos na balança.

O Efeito Sombra surge como um potente reflexo externo do mundo interno que está perigosamente desequilibrado. Porém, por mais dolorosos que sejam, esses momentos servem para começar um processo de evolução involuntária.

Quando somos confrontados pela sombra, e ela é vista por aqueles cuja opinião prezamos, saímos da negação e, esperançosamente, reconhecemos que precisamos fazer algo a respeito.Se fôssemos capazes de nos enxergar com precisão, seria uma tarefa mais fácil.

Mas não conseguimos e, por conta dis­so, é muito fácil cair no transe da negação, também conhecido como "Nem noto que estou mentindo". A mentira começa conosco. Se tivéssemos intimidade com nossos impulsos sombrios — se soubéssemos que egoísmo, raiva, ganância e intolerância têm mensagens importantes a transmitir —, prestaríamos aten­ção à presença deles, como um amigo de confiança que bate à porta.

Mas, quando alienamos nossa sombra; quando, por medo, nos recusamos a reconhecer ou receber as mensagens que ela está tentando enviar, esteja certo de que faremos algo ou nos envolveremos com alguma coisa que trará o lado som­brio à superfície.

 Nessas ocasiões, a notória batida à porta mais parece uma pancada na cabeça; no entanto, os momentos em que encontramos a escuridão repudiada não são apenas os mais dolorosos, mas também os mais férteis de nossa vida.

Se queremos evitar a cólera do Efeito Sombra, precisamos fazer uma verificação da realidade diariamente, observando se estamos agindo de maneira que pode nos envergonhar, constranger ou destruir família, carreira, saúde ou autoesti­ma.

Precisamos acordar e pensar se estamos escondendo ou negando uma vida secreta; temos de nos conscientizar de nossos hábitos, comportamentos ou maneiras de ser que talvez es­tejamos escondendo dos outros.

Se tememos pelo que poderia acontecer caso a família, os colegas de trabalho ou amigos vis­sem nossos e-mails, checassem o histórico de visitas a sites ou lessem os pensamentos perversos e de julgamento de nossa mente, temos de reconhecer essas coisas como sinais — sinais vermelhos piscando. A negação é a culpada por mantermos nossa vida secreta intacta e oculta — e nos mantém focados em qualquer coisa, menos em nossas indiscrições.

Para abraçar nossa sombra e destruir a possibilidade de o Efeito Sombra nos dominar, precisamos nos abrir para uma verdade maior quanto à nossa humanidade e o que está à espreita sob a superfície da pessoa que julgamos ser.

Quando direcionamos a mente à investigação da hipocrisia do compor­tamento humano, abrimo-nos a uma verdade mais profunda e significativa — que todas as nossas partes merecem ser vis­tas, ouvidas e abraçadas; que cada aspecto detém uma dádiva maior do que podemos enxergar e cada sentimento merece uma expressão saudável.

Quando eles tentam nos retirar da escuridão e nos expor à luz, irão nos apoiar na criação
de relacionamentos saudáveis, na recuperação da boa saúde mental e no alcance de nosso potencial.O Efeito Sombra destrói nosso personagem perfeitamente construído, de modo que podemos nos reinventar como alguém diferente de quem temos sido.

A sabotagem pessoal não é nada além de relutância do self superior em continuar inter­pretando o papel que designamos a nós mesmos. De preferên­cia, deveríamos abraçar os aspectos rejeitados de boa vontade; quando insistimos, contudo, em nos ater aos personagens, a queda pode ser dolorosa e turbulenta.

Há exemplos disso por toda parte. Britney Spears, a mosqueteira norte-americana que usava a máscara de boa garota, entra em uma espiral de autodestruição, tornando-se uma notória garota má. Tiger Woods, maior jogador de golfe de todos os tempos, com a más­cara de realizador acima da média, tem atitudes que o fazem passar de super-herói a traidor sabotador de si mesmo.

Quan­do a máscara da personalidade humana fica apertada demais, quando já não há mais lugar para respirar, ela explode, para que possa recriar-se. Há literalmente milhões de exemplos que vêm ocorrendo ao longo do tempo e claramente demonstram o fenômeno do Efeito Sombra.

No entanto, quando essas in­discrições pequenas ou gigantescas de outras pessoas são trazi­das à luz, sacudimos a cabeça, perplexos pelo comportamento que apresentam. Dizemos que a pessoa caiu em desgraça.

Mas será que é isso? Será que a desgraça não é a encenação bem construída que apresentamos ao mundo enquanto nossa vida secreta está escondida dos que amamos?

Debbie Ford



Fonte: Extraído do Livro "O Efeito Sombra"