quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

A Memória do Futuro



Em nosso Sítio Vida de Clara Luz, plantamos muitas árvores para o futuro. Outro dia, Peter Webb me disse diretamente: "Você sabe que não estaremos aqui quando estas árvores estiverem crescidas?". Ok, entendi. Estamos plantando sementes para um futuro melhor.



Fazer algo por um futuro melhor, mesmo que não estejamos vivos para colher este benefício, gera-nos esperança diante da vida. Meus filhos eram pequenos quando me divorciei do pai deles. Eles me perguntavam:

"Mãe, por que você está se separando do papai?" E eu respondia: "Agora é difícil, mas é para um futuro melhor". A memória das consequências que podem surgir se não criarmos um presente saudável, leva-nos a tomar decisões efetivas.

É como parar de fumar. Na hora é difícil, mas é para um futuro melhor. Lama Michel Rinpoche nos fala: "Costumo dizer que todos nós somos entre aspas completamente livres para fazer tudo aquilo que queremos. Entre aspas, porque não podemos escapar dos resultados daquilo que fizemos. Não há como fazer uma ação e não ser responsável por ela. Isso simplesmente não é possível. Então, aquilo que eu sou hoje, física e mentalmente ou em relação à sociedade é o resultado de minhas próprias escolhas.
O Presente é o resultado do Passado".

São palavras de Buddha: "Se você quiser saber o que fez no passado, olhe seu corpo no presente. Se quiser saber o seu futuro, olhe sua mente no presente".

Comprometemo-nos com o futuro quando reconhecemos, honesta e profundamente, que a realidade atual é um reflexo do passado amadurecido pelas condições atuais.

Portanto, agir de modo coerente com o que queremos viver no futuro é ativar uma inteligência baseada na memória do futuro. Mas, em nossa sociedade hedonista, que busca o prazer imediato para aliviar a angústia de uma vida vazia, sem imagens de futuro, impede-nos de refletir desta forma.

Como nos comprometermos com o futuro se não soubermos quem somos agora mesmo? O psicanalista Ivan Capelatto nos alerta há 10 anos em sua palestra sobre "A crise dos Gêneros" (Programa Café Filosófico, 2004) que estamos sem saber fazer escolhas devido à perda da identidade, da situação identificatória de que nós humanos precisamos e não mais temos. Isso ocorre por um lado porque a sociedade contemporânea só oferece padrões de identidade social - vivemos pelas marcas, pela imagem coletiva e não mais por nossa marca pessoal - e porque não suportamos mais aceitar limites uma vez que desaprendemos a sublimar nossa dor.

Vamos compreender isso melhor. Ivan Capelatto explica:
"Quando nossa sexualidade ganhava através das culturas, da família e das instituições, um conteúdo reprimido, na impotência da sua satisfação, nascia um mecanismo que Freud chamou de sublimação. Na nossa sociedade contemporânea, onde o permitir a expressão individual de cada movimento sexual fica livre, nós diminuímos o conteúdo sublimatório, nós diminuímos a quantidade de expressão, de criação, de cultura, artes e música. É uma sociedade onde, neste exato momento, estamos no platô sem sabermos que direção tomar. Esse movimento sublimatório, na medida em que vá diminuindo, vá parando, nos leva a isso que nós olhamos nos jornais, na TV todos os dias, que é o aparecimento do imediatismo. Freud chamava isso de o retorno do princípio do prazer, que é ficar sujeito, submetido às nossas pulsões mais primárias, sem passar essas pulsões pelo crivo da realidade, da crítica e da nossa relação real do mundo".

Segundo Capelatto, a sublimação surge na medida em que tocamos o limite de nossa dor. Quando reconhecemos "daqui eu não posso passar", buscamos outras formas de viver esta dor, como a música, a pintura e a poesia. Quando o sofrimento e os limites passam, nós voltamos ao princípio do prazer. Quando não existe o interdito, quando não existe barreira, além de ficarmos filiados a esse imediatismo do prazer, ficamos reféns do instinto de morte, isto é, da necessidade de adiantar algo que temos medo que ocorra. Para fugirmos da angústia do fim das coisas, nós as adiantamos: "para não perder, perdemos". Por exemplo, o medo de que nosso casamento falhe, faz com que nos separemos.

Capelatto ressalta: "O ponto é que numa sociedade que não apresenta mais o limite e nem a sublimação, nós não temos mais a capacidade de um EU que faça escolhas porque não sabe o que quer. Queremos tudo".

Escolher algo significa perder algo. Se quisermos viver apenas o prazer imediato, não conseguiremos nos fixar em nossas escolhas! Portanto, se quisermos cultivar uma inteligência baseada na memória do futuro, temos que reconhecer que aceitar limites não significa ser limitado, preso em si mesmo ou subjugado a uma situação, mas sim, uma forma de autorrespeito. Na medida em que reconhecemos os limites de cada situação, podemos nos organizar coerentemente. Saber suportar a dor e encontrar formas criativas de expressá-la é a chave para direcionar nossa angústia. São tantas as vezes que dizemos: "Não suporto mais" que não nos damos mais conta do que de fato estamos suportando. Indevidamente, buscamos um alívio imediato sem nem mesmo saber do que.

O que vale a pena suportar? A memória do futuro irá nos responder.

Bel Cesar


Psicóloga, pratica a psicoterapia sob a perspectiva do Budismo Tibetano desde 1990. Dedica-se ao tratamento do estresse traumático com os métodos de S.E.® - Somatic Experiencing (Experiência Somática) e de EMDR (Dessensibilização e Reprocessamento através de Movimentos Oculares). Desde 1991, dedica-se ao acompanhamento daqueles que enfrentam a morte. Autora dos livros Viagem Interior ao Tibete, Morrer não se improvisa, O livro das Emoções, Mania de sofrer e recentemente O sutil desequilíbrio do estresse, todos pela editora Gaia.
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Email: belcesar@ajato.com.br

Fonte: Somos Todos Um